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A cidade que ninguém vê: o relato de mães que sobrevivem com menos de 300 reais por mês

A série tem a proposta de evidenciar famílias que vivem em situação de extrema pobreza e são esquecidas pelo poder público e sociedade em geral.

Além do caos no sistema público de saúde, a pandemia revelou outro problema antigo do país: a desigualdade social. Segundo pesquisas feitas pelo IBGE este ano, 12,8% da população brasileira ficou abaixo da linha da pobreza extrema, ou seja, mais de 27 milhões de pessoas sustentam suas famílias com apenas R$ 246,00 por mês.

Em Picos, a realidade não é diferente do parâmetro nacional. Muitas famílias têm que se desdobrar com um pouco mais de R$ 200,00, provenientes, em sua maioria, de benefícios sociais, para o sustento da casa. Ou seja, com o dinheiro, os pais e mães de famílias têm que pagar aluguel e comprar os mantimentos. Muitas vezes, a pedinte que é vista nas ruas de Picos, viu ali uma última opção, mesmo que humilhante, de poder alimentar seus filhos.

No início da nossa série “A cidade que ninguém vê”, estaremos apresentando duas mães, moradoras do bairro Morada do Sol, especificamente do Quilombo, uma das áreas picoenses mais desassistidas pelo poder público, e que vivem sob a escassez financeira.

Rosângela Henrique da Silva, 31 anos, é mãe de quatro filhos (5, 9, 12 e 13 anos) e tenta sobreviver com R$ 253,00, proveniente do Bolsa Família. Seu esposo tenta viver de bico, pois perdeu o último emprego após a fiscalização chegar ao local e ver diversas irregularidades.

Rosângela Henrique da Silva

Há seis anos, a família mora em uma casa de taipa no Quilombo, bairro Morada do Sol, cujo aluguel custa R$ 150,00. Se a chuva vem, todos procuram outro abrigo com medo de que ela desabe. Sem falar nos animais peçonhentos, como cobras e escorpiões, que são encontrados com frequência.

Contudo, uma das maiores dificuldades que a família tem enfrentado é poder se alimentar com o que sobra do benefício social. R$ 103,00 para seis pessoas comerem por um mês. Rosângela relata como eles têm sobrevivido em meio à pandemia.

“Eu não tenho emprego porque cuido da casa. Meu marido, que trabalha com construção, está parado há uma semana. Com isso, divido a metade do que ganho para a casa e a outra para comer. Vivo basicamente de ajuda. Já chegou o momento de meus filhos pedirem algo e eu não poder dar. Nunca passamos fome porque moro perto dos meus pais e eles nunca deixaram faltar nada, mas já faltou o que comer dentro de casa. O sentimento de impotência é grande”, disse ela constrangida.

Ela falou ainda que a família tem sorte de não precisar pagar por água e energia, pois se fosse preciso, não teriam nem como se alimentar. Pediu ainda que a população picoense abra os olhos para as pessoas desassistidas de Picos.

“Por sorte, não pagamos conta nem de água e nem de energia. Fico mais aliviada por causa disso. Se eu pagasse, aí que nós passaríamos fome mesmo. Eu não sou de pedir, nem na casa de meu pai. Aqui, quando a gente tem, nós comemos. Quando não tem o que comer, não comemos. Não é por orgulho, mas para não incomodar. Mas hoje peço para que as pessoas ajudem as famílias que estão precisando, porque tudo dificultou nessa pandemia”, lamentou.

Acompanhe abaixo a entrevista na íntegra

A dona de casa Dayana da Silva Rodrigues, 27 anos, também é mãe de quatro filhos (o menor de 1 ano e 5 meses, e os demais de 4, 6 e 8 anos). O mais novo sofre de hidrocefalia. A peculiaridade dificulta a situação financeira da família que tem que sobreviver com o Bolsa Família de R$ 250,00.

A quantia tem que ser desdobrada em alimentação para os quatro filhos, sendo que um deles possui dieta diferenciada, além de ter que comprar – ou tentar pelo menos – parte da medicação do bebê.

Dayana disse que se não fosse a ajuda que tem recebido das pessoas não sabe como sobreviveria a esse momento delicado de doença de seu filho mais novo.

“Está muito difícil esse momento. Não posso trabalhar porque tem meus filhos para olhar, o mais novo com hidrocefalia. Não tem quem fique com eles. Também sofri um acidente há alguns anos e estou com muita dor na perna e está difícil até andar. Estou contando com a ajuda das pessoas e com o Bolsa Família que é para pagar gás, água, luz, feira, algum exame ou consulta, os remédios de meu filho…”, contou.

Ela disse que somente a medicação do filho custa em torno de R$ 500,00 e que não seria possível comprá-la se não fosse pela ajuda das pessoas. Ela lamenta ainda a dificuldade em assistência médica para o filho por meio do poder público.

“Eu só consegui uma consulta para ele quando ele tinha oito meses. Passei três meses em Teresina cuidando dele. Mas agora, com essa pandemia, está a maior dificuldade. A gente só consegue se for particular e particular eu não tenho condições. Eu não tenho dinheiro, não tenho como trabalhar. Então só conto com a ajuda das pessoas que têm bom coração. Estou pelejando para conseguir a cirurgia e tomografia dele, pois ele precisa fazer uma cirurgia para colocar uma válvula na cabeça urgente, senão meu filho morre”, disse.

Dayana disse que seu maior medo não é passar fome, mas perder o filho.

Veja abaixo os relatos de Dayana:

“Estou com medo de perder meu filho. Ele está dormindo demais. O último médico disse que ele pode morrer a qualquer hora e essa cirurgia não sai. Estou com medo de perder meu filho, e eu vou fazer o que? Não posso sair daqui sem um encaminhamento e o pessoal daqui [assistência social] não quer mandar. Veio uma mulher me dizer que só vão receber meu filho quando ele estiver morrendo. E eu vou esperar ele morrer? Da última vez que fui, ele quase não chega vivo”, disse aos prantos.

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