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Artigo do leitor: Televisão e Futebol

(*) Edimar Luz

Escritor/cronista, poeta, articulista, memorialista, compositor, professor e sociólogo.

Não há dúvida de que a televisão é o meio de comunicação de massa de maior penetração no mundo atual, atingindo diariamente um público bastante numeroso. Na verdade, a televisão tem também uma grande capacidade de manipular e determinar comportamentos, proporcionando, muitas vezes, profundas mudanças sociais. É importante observar que tão naturalmente esse meio de comunicação tornou-se dominante. Raras são as casas em que não se encontram, hoje, pessoas ligadas na telinha, especialmente à noite.

É preciso, portanto, ressaltar aqui, que foi nos primeiros anos da década de 70 que, com imagem ainda em preto e branco, chegava a Picos a televisão, alterando e revolucionando de certa maneira o modo de vida do nosso povo, de nossa sociedade, que a partir daquele momento ingressava no mundo fascinante da TV. Realmente, foi bem aceita aquela novidade, que foi a inserção da televisão nos lares picoenses, exercendo certo fascínio nas pessoas. É bem verdade que a novidade é um fator que influencia a aceitação, pois, na realidade, tudo que é novidade, em geral, é aceito mais facilmente. Como sabemos a TV é um produto extraordinário da ciência e da técnica, que começou a se expandir rapidamente após o final da Segunda Guerra Mundial, sendo a principal responsável pelo declínio do cinema e também pelo relativo ofuscamento do rádio. Na verdade, se o cinema havia sido anteriormente o meio de comunicação mais popular, com a expansão da televisão a indústria cinematográfica entrou definitivamente em definhamento. A televisão é hoje organizada sob grandes monopólios de comunicação. Esse meio de comunicação só chegaria ao Brasil em 1950, sendo a TV Tupi de São Paulo, a primeira emissora de televisão do País, a qual foi inaugurada naquele mesmo ano. Não se pode negar que no começo da televisão brasileira, no início dos anos 50, o que se fazia, de fato, era assim mais ou menos um rádio televisionado, pois a então estreante TV ainda não havia conquistado de fato sua forma própria, sua própria linguagem, a linguagem da televisão.

No decorrer dos anos 70, inúmeros foram os aparelhos televisores adquiridos pelas pessoas de Picos, acostumando-se alguns às novidades, ou seja, aos diversos gêneros de TV, tais como os programas de humor, os programas de auditório, as telenovelas, os musicais, os telejornais, os desenhos animados e os programas esportivos, com destaque para o futebol, nosso esporte preferido. Aliás, é indiscutível que nenhum outro esporte no Brasil tem tantos praticantes e torcedores como o futebol, o qual está fortemente arraigado em nossa cultura. O futebol é, sem sombra de dúvida, o esporte das grandes multidões no Brasil. É impressionante a grandiosidade do público durante as importantes partidas de futebol.

Cumpre lembrar que mesmo com a televisão já presente na maioria dos lares do meu bairro Ipueiras naqueles anos 70, tínhamos, entretanto, o costume de assistir aos jogos da Seleção Brasileira quase sempre na casa do senhor Joaquim A. Luz (Joaquim de Antônio Jovino), primo do meu pai, especialmente na segunda metade daquela década, mais precisamente entre os anos de 1976 e 1977. Na verdade, era comum se observar, em virtude da animação e do divertimento, os telespectadores e admiradores do futebol, reunindo-se e lotando o corredor e a sala daquela casa em dia de jogo da Seleção. Aquela foi uma cena que se repetiu por muitas vezes durante aqueles anos. Lembro que a sala, em diversas ocasiões, ficava cheia de gente, todos parentes e amigos, entre adultos, jovens e crianças, que ali compareciam com o objetivo de assistir pela televisão com imagem ainda em preto e branco, aos espetáculos futebolísticos. Claro que assistíamos também em nossa casa ou em outras casas, mas ali era realmente mais animado. Por isso, com saudade recordamos aquele tempo, época em que se destacava como titular absoluto da Seleção Brasileira o grande goleiro Leão, goleiro que marcou época (toda a década de 70) jogando pela Seleção, nas Copas, torneios e amistosos, e pelo Palmeiras, meu time do coração desde criança; o Verdão de Parque Antártica, conhecido então também como a Academia, nos anos 60 e 70, o Campeão do Século XX, e primeiro campeão mundial de clubes, em 1951. (Tinha tudo para ser Bicampeão Mundial em 1999, não fosse a falta de sorte, perdendo inúmeros gols num jogo que dominou do começo ao fim, e os erros da arbitragem, anulando um gol legítimo do Verdão). Palmeiras, um clube de tantas glórias e tradição! Como bem atesta a sua invejável e admirável história. O Alviverde Imponente, maior campeão do Brasil! Grande e inigualável Palmeiras, o maior vencedor do futebol brasileiro de todos os tempos! Além de ser um dos dois únicos clubes, junto ao São Paulo F C, a ter jogadores em todas as cinco conquistas brasileiras da Copa do Mundo. Além de ter representado com honra e brilhantismo a Seleção Brasileira no torneio internacional da inauguração do estádio Mineirão, em Belo Horizonte, derrotando no dia 7 de setembro de 1965 a poderosa Seleção do Uruguai pelo placar de 3 a 0. Naquele dia o Palmeiras trocou a camisa verde pela amarela da Seleção, sendo uma das maiores honras e glórias da vitoriosa história da Sociedade Esportiva Palmeiras. O dia em que o Periquito se transformou em Canarinho!

É importante lembrar que na Copa de 1978, da qual o Brasil saiu invicto e estranhamente não foi campeão, o célebre e lendário goleiro brasileiro Leão permaneceu 457 minutos de jogo sem levar gol. E para as seleções da FIFA, seu nome com toda justiça era sempre lembrado, e considerado o melhor goleiro do mundo, numa época em que o mundo contava com outros também grandes goleiros, como o alemão Maier, o italiano Dino Zoff e o argentino Fillol. Mas, sem dúvida, naquela época, Émerson Leão era o melhor goleiro do Planeta.

Lembro-me também que quando acontecia algum problema no sinal de transmissão, era executado-tocada, até a volta do sinal, aquela música meio instrumental/cantada e inconfundível, de nome Hyde Park, a qual hoje também faz parte como tema de abertura e encerramento do programa de esporte dominical da Rede Globo, denominado Esporte Espetacular; e no vídeo era apresentado na época um desenho estático de dois jogadores disputando uma jogada, um lance, enquanto tocava a música. E hoje ao ouvir aquela música, recordamos com saudade aquele tempo dos bons jogos da Seleção Brasileira transmitidos ao vivo.

Em 1972 (ano em que comecei a torcer pelo Verdão), como a energia elétrica ainda não havia chegado ao meu bairro Ipueiras, nós meninos costumávamos, às vezes, ir assistir lá no bairro Junco, na casa do senhor Né Tibúrcio, esposo da senhora Marieta, prima da minha mãe, apenas a alguns jogos da Seleção, com imagem ainda em preto e branco, especialmente a Mini Copa daquele ano. E o Brasil sagrou-se campeão, tendo já como titular absoluto o grande goleiro palmeirense Émerson Leão.

As transmissões televisivas de jogos envolvendo clubes de futebol eram bem mais raras naquela época; transmitiam-se com muito mais frequência as partidas entre seleções; daí o processo assume visíveis dimensões nacionais e patrióticas.

Naquela época, em praticamente todos os jogos da Seleção Brasileira, oficiais ou não oficiais, era executado o Hino Nacional, antes do início da partida. A partir daí, a emoção em cada um se fazia ainda mais forte, acompanhada de um patriotismo extraordinário.

A Seleção repleto-impregnada de craques geniais ostentava um futebol de primeira, com exibições excelentes, tendo quase sempre belíssimas e memoráveis apresentações, com apenas raras decepções. A nossa Seleção nos deixava realmente envaidecidos. E, por isso, há muito tempo, o nosso país é merecidamente chamado no meio futebolístico, de “Pátria de Chuteiras”, expressão esta criada pelo dramaturgo, jornalista e escritor Nelson Rodrigues.

Obs. Do meu livro Memórias do Tempo. Direitos reservados.

(*) Edimar Luz é escritor/cronista, poeta, articulista, compositor, memorialista, professor e sociólogo, formado em Recife – PE.

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