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Imagens: Denilson Leite
Reportagem de Carmo Neto – Tv Clube
Texto adaptado: Riachaonet

Há árvores que compõem a paisagem. Outras ajudam a contar a história de um povo. Em Ipiranga do Piauí, o buriti faz as duas coisas. Presente nas áreas úmidas do município desde muito antes da emancipação da cidade, a palmeira tornou-se um dos maiores símbolos da identidade local, movimentando a economia, preservando tradições e mantendo vivo um patrimônio cultural que atravessa gerações.

Muito antes de ganhar reconhecimento como “Terra do Doce e do Artesanato”, Ipiranga era conhecida simplesmente como Buriti. O nome fazia referência à grande quantidade de buritizais existentes na região, uma riqueza natural que, com o passar do tempo, transformou-se em fonte de trabalho, renda e pertencimento para a população.

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Kennyana Miranda (sec. de Cultura, Turismo e Juventude de Ipiranga do PI)
Kennyana Miranda (sec. de Cultura, Turismo e Juventude de Ipiranga do PI)

Hoje, mesmo diante das transformações econômicas e sociais, ainda existem famílias que resistem ao tempo e continuam extraindo da planta muito mais do que matéria-prima: retiram dela a própria história.

Arte aprendida em casa e passada entre gerações

Em um dos ateliês de artesanato do município, a artesã Flávia Pereira trabalha pacientemente na confecção de uma bandeja feita com a tala do buriti. O gesto parece simples, mas carrega décadas de aprendizado.

Flávia Pereira – Artesã do buriti

Ela conta que aprendeu o ofício ainda criança, observando a avó e a mãe transformarem a fibra da planta em utensílios domésticos.

O que começou com pequenas cestas e peneiras evoluiu para uma produção diversificada. Hoje, Flávia confecciona luminárias, bandejas, vasos, cadeiras, cachepôs e peças decorativas comercializadas dentro e fora do Piauí.

A internet ampliou o alcance do seu trabalho. Encomendas chegam de Teresina e de outros estados, demonstrando que um conhecimento tradicional, quando valorizado, também encontra espaço no mercado contemporâneo.

Mas, para ela, a maior preocupação vai além das vendas.

“Tem que ter alguém que leve essa tradição para frente, para não deixar morrer.”

A frase resume o sentimento de muitos artesãos que enxergam no buriti não apenas uma fonte de renda, mas uma herança cultural.

O doce que educou uma família inteira

Se a fibra alimenta o artesanato, o fruto do buriti preserva outra tradição igualmente importante.

Há mais de cinco décadas, o agricultor Vicente Bulcão produz artesanalmente o tradicional doce de buriti, mantendo praticamente inalterado todo o processo de fabricação.

Vicente Bulcão produz artesanalmente o tradicional doce de buriti
Vicente Bulcão produz artesanalmente o tradicional doce de buriti

Da preparação da polpa à embalagem confeccionada com a própria tala da planta, tudo continua sendo feito como antigamente.

Foi justamente dessa atividade que nasceu o sustento de sua família.

Seu Vicente relembra que vendia baldes inteiros de doce para comerciantes que levavam a produção até Teresina, onde a procura era intensa.

Com o dinheiro obtido da venda dos doces, conseguiu criar os filhos e investir na educação deles, inclusive pagando durante anos os estudos de uma filha em um colégio particular na capital.

Sua história revela como um produto típico do interior piauiense foi capaz de transformar vidas por meio do trabalho e da perseverança.

Uma árvore que aproveita tudo

Poucas espécies vegetais possuem tanta versatilidade quanto o buriti. Da planta praticamente nada se perde.A tala transforma-se em móveis, utensílios e peças decorativas. O fruto vira doces, polpas, compotas e outras receitas tradicionais. As folhas servem para diferentes aplicações artesanais.

Essa utilização integral faz do buriti um exemplo de aproveitamento sustentável dos recursos naturais, característica que fortaleceu sua importância econômica ao longo das décadas.

Símbolo da identidade de Ipiranga

Segundo a secretária municipal de Cultura, Turismo e Juventude, Kennyana Miranda, o buriti está profundamente ligado à formação histórica do município.

Ela lembra que a antiga localidade recebeu inicialmente o nome de Buriti, justamente pela abundância da palmeira na região.

Ao longo dos anos, a população aprendeu a utilizar seus recursos para produzir doces e artesanato, atividades que cresceram até consolidar Ipiranga como referência estadual nesses segmentos.

Hoje, quando se fala no município, é praticamente impossível dissociar sua imagem da produção artesanal e da gastronomia baseada no buriti.

Desafio é garantir o futuro dessa tradição

Embora continue sendo um dos maiores símbolos culturais de Ipiranga do Piauí, o número de pessoas que ainda dominam as técnicas tradicionais vem diminuindo.

A sucessão entre gerações tornou-se um dos principais desafios para manter viva essa herança.

Cada artesão que continua trabalhando com a fibra do buriti, cada produtor que ainda prepara o doce da maneira tradicional, desempenha um papel que vai muito além da atividade econômica.

São guardiões de um patrimônio imaterial construído ao longo de décadas.

Mais do que produzir peças artesanais ou alimentos típicos, preservam memórias, fortalecem a identidade local e mostram que desenvolvimento também passa pela valorização da cultura.

Em Ipiranga do Piauí, o buriti continua de pé, não apenas como parte da paisagem, mas como uma árvore que sustenta histórias, inspira gerações e mantém viva a alma de um município inteiro.

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