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Medo, luta e luto: o relato de quem passou e viu passar pelo ‘vale da morte’ com a Covid-19 em Picos

O primeiro personagem dessa série é o jovem Marcos Venicio, 37 anos, que passou 28 dias internado. Destes 17 em UTI.

Um pouco mais de um ano se passou desde o início da pandemia e com o tempo muitas histórias foram transformadas. Algumas para bem, outras nem tanto. Enquanto muitos conseguiram vencer dias a fio dentro de hospitais, seja em enfermaria ou UTI, outros viram suas famílias serem destroçadas pela morte de algum ente querido.

O Portal RiachãoNet fará, nos próximos dias, uma série intitulada “Medo, luta e luto”, que conterá cinco histórias de picoenses que viram a morte passar por perto, mas conseguiram vencer a Covid-19. E também relatos de pessoas que viram seus entes queridos serem levados pela doença.

Nossa primeira história teve início no dia 28 de agosto de 2019. O personagem? Marcos Venicio Rodrigues dos Santos, 37 anos, balconista de farmácia. Ele deu entrada no Hospital Regional Justino Luz de Picos no referido dia. Lá, passou 28 dias internado, entre leito clínico e unidade de terapia intensiva.

Marcos Venicio, quando deu entrada no HRJL tinha por único sintoma a falta de ar, que se agravava consideravelmente. Ao realizar o exame de tomografia computadorizada, foi constatado que 60% de seu pulmão estava comprometido.

Com dois dias na enfermaria, ele teve que ser levado à UTI para uma melhor monitoração do caso. Lá, foi entubado após o primeiro dia e passou outros três inconsciente. Nos demais 14, ele viveu dias de muito medo, vendo muitas pessoas morrerem, mas se agarrava à sua fé.

“Quando dei entrada no hospital não sabia que estava infectado, pois eu não tinha nenhum outro sintoma. Lá dentro eu ficava vendo o que acontecia e também muito pensativo. Assisti muitas mortes, infelizmente, dentro desses 17 dias. Vi, mais ou menos, 26 pessoas morrerem. Na minha cabeça ficava passando que eu não voltaria para casa vivo. Pensei que aconteceria comigo o que vi acontecer com muitos ali. Apesar do medo, tinha esperança de que tudo ia dar certo. Algo surgia em meu coração enquanto estava ali”, disse ele.

Marcos contou ao RiachãoNet que a doença desenvolveu nele quatro complicações que tornaram o caso ainda mais grave.

“Meu quadro foi se agravando dia após dia, evoluindo em alguns outros sintomas e doenças ali na UTI. Tive quatro complicações em decorrência da Covid. Após os 17 dias de UTI, passei mais nove na enfermaria, pois adquiri uma infecção generalizada. Quando tive alta, ainda precisei me deslocar a Teresina para tratar da taxa de coagulação do sangue que estava alterada. Lá descobri mais uma complicação: uma trombose. Com a doença tive pneumonia aguda e, mesmo após tomar duas doses da vacina, contraí H1N1. Também tive amigdalite em alto grau”, falou Marcos Venicio.

Ainda hoje Marcos realiza tratamento para combater a trombose. Ele frisou que a doença não trouxe apenas sequelas físicas, mas também emocionais. Contudo, frisa que é preciso manter a fé de que as coisas melhorarão e não se entregar à doença. Ele destacou o apoio incondicional de sua família enquanto esteve doente.

“O medo ainda permanece porque a gente fica com trauma de tudo o que passou, de saber que, provavelmente, não voltaria vivo para casa. Além das sequelas físicas, estou tratando os traumas psicológicos que adquiri. Temos que ter consciência do que temos, mas o importante é não nos entregarmos à doença. Uma base forte para isso foi o apoio de minha família, que sempre esteve presente em todo o tempo, me deu suporte e apoio para que eu estivesse hoje aqui”, declarou.

Ele disse que tem medo de uma reinfecção, mas que tem tomado todos os cuidados para não contrair a doença novamente. Fez um apelo à sociedade, especialmente aos negacionistas, para que encarem com seriedade a pandemia, principalmente pelas mutações que o vírus vem sofrendo.

“Encaro a reinfecção como algo muito sério. Deixo um aviso pedindo para que a população se comova com a situação, que tenha ciência de que ainda vivemos um tempo difícil e grave. A reinfecção vem de cara nova. Sabemos que a doença sofre mutações e a gente não sabe de quanto em quanto tempo isso acontece, pois é uma doença nova. Ainda não sabemos como ela pode evoluir, mesmo com tantos estudos. Embora os profissionais da área estejam tentando alcançar esse objetivo, a situação vem piorando dia após dia e fazendo com que fiquemos para trás, sem saber de que forma ela pode evoluir. Portanto, mesmo com medo, é preciso que eu tenha determinação. Encaro ela com cuidados, pois a melhor forma de tratar essa doença é se prevenindo. Por isso, façamos nossa parte e tenhamos cuidado”, apelou.

O jovem acredita ser um milagre de Deus e que até os próprios médicos vêm nele isso. Como resultado de tudo o que passou, ele afirma ser hoje muito mais ousado do que fora outrora, mas que sempre com cuidado.

“Hoje estou no tratamento das sequelas, terminando e agradecendo a Deus a cada instante por tudo quanto tem feito. Os médicos olham para mim hoje e vêm o quanto fui um milagre. Eu estive sem andar no tempo em que fiquei internado, não falava, perdi toda a coordenação do meu corpo em decorrência da Covid. Depois dessa experiência, o Marcos de antes era cheio de dinamismo, esperança e fé. Sempre foi batalhador, conquistador daquilo que sempre sonhou. Hoje sou um Marcos bem mais aguçado quanto às experiências. Sou um Marcos agradecido, em primeiro lugar a Deus, à toda sociedade picoense que se comoveu em oração para que eu estivesse vivo e a todos os médicos e profissionais de saúde do Hospital Regional Justino Luz. Também à minha família, aos colegas de trabalho e meus amigos”, falou agradecido.

O jovem tem se dedicado com determinação a voltar a todas as suas atividades laborais com a mesma disposição, ou até mais, que antes. Ele venceu a Covid e continua vencendo, dia após dia, as sequelas que ficaram.

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