ad16
DestaquesGeralTodas as Notícias

O abraço que fica: família e amigos prestam homenagens a Sávio Barão

O corpo do picoense Sávio Barão está sendo velado no Salão do PAF, na Rua do Cruzeiro.

Após a divulgação do falecimento precoce do ator e militante Sávio Barão, diversas pessoas, entre familiares, amigos e conhecidos, têm prestado suas homenagens àquele que modificou, ou pelo menos tentou, o conceito de arte e cultura na cidade.

Atuante não apenas como ator, Sávio Barão trazia em seu sangue o dom para a poesia, para a direção de conteúdos teatrais e cinematográficos e também a raça de lutar em favor do seu povo que outrora fora escravizado e ainda sofre as repressões por conta da cor da pele.

Para Luís Paulo Barão, sobrinho de Sávio, ele parte, mas deixa um legado inenarrável, principalmente no servir. Destacou que a maior herança que fica é sua história.

“Sávio ele era plenitude. Plenitude na entrega, no amor, na bondade, na lealdade, na humildade. Ele era teatro, esporte, escotismo. A gargalhada fácil da esquina, o abraço apertado de todas as horas, o aperto de mão que demonstrava sinceridade. Ele viveu uma vida que fica para a história. A nossa riqueza é nossa história e ele foi rico em tudo o que fez, pois em tudo se dedicou ao máximo e deixa isso como herança. Sua riqueza não estava nos bens materiais ou conta bancária, mas em servir, principalmente ao próximo. Com o que tinha e com o que não tinha, ele servia. É o mais Barão dos Barões”, falou.

O cineasta piauiense, e também amigo íntimo de Sávio Barão desde 1997, Flávio Guedes, lamentou com grande dor a perca que teve no dia de hoje ao receber a notícia do falecimento do ator picoense.

“Para a minha vida, Sávio era de uma importância gigantesca, de uma presença constante, por isso não consigo me imaginar sem o Sávio. Não consigo imaginar quando tiver que voltar para Picos de novo e não poder contar com o abraço, com o sorriso, com o acolhimento dele e sua presença na nossa luta por fazer a arte. Ele foi um irmão que a vida me deu, que Picos me presenteou. Desde que nos conhecemos, em 1997, através do teatro, que nossa amizade só cresceu. E cresceu a ponto de eu não me imaginar sem ele. Nunca imaginei que esse dia fosse chegar, apesar de saber que ele chega para todos nós. Hoje, nesse momento, sou só dor e saudade”, afirmou com pesar o cineasta.

Os dois se encontraram através do teatro e, desde então, seguiram suas vidas juntos. O último trabalho que fizeram – e que ainda está por concluir – é o filme “Uma mulher chamada Esperança”.

“Não sei como irei concluir nosso último trabalho juntos: “Uma mulher chamada Esperança. O roteiro eu tinha transformado em um livro e dedicado a ele e eu pude entregá-lo no dia do aniversário dele e ele ficou tão feliz, tão orgulhoso. Perguntou se eu dedicaria o filme a ele e eu disse que sim. Foi tão emocionante pra gente… O filme ainda está em fase de conclusão e nós poderemos vê-lo em seu último trabalho técnico, atuando. Apesar de saber que será dolorido pela saudade, vai ser também reconfortante para vermos ele fazendo o que mais gostava: arte”, declarou.

Flávio Guedes disse ainda que seu conforto foi ter expressado, em todos os seus dias de amizade, o quanto amava a Sávio Barão e o quão importante ele lhe era na vida pessoal e artística.

“Ele é merecedor de toda homenagem. Ele lhe abraçava sem precisar lhe tocar e seu abraço físico era inesquecível. Ele é insubstituível. Ele continuará vivo dentro de nós. O seu legado na arte não vai e nem pode ser esquecido. O que me conforta é poder ter dito para Sávio, em muitos momentos, na maioria dos meus dias, o quanto eu o amava, o quanto ele era importante para mim. O Sávio foi e é importante para mim em todos os sentidos, sejam artísticos ou pessoais”, frisou.

Também amigo pessoal e de longas datas de Sávio Barão, o empresário Pepeu lamentou a morte precoce daquele que sempre lhe foi bem quisto. Disse estar impactado com a notícia e sem acreditar, principalmente por estar fora do Estado. Relembrou ainda momentos especiais que viveu ao lado do amigo.

“Foi impactante receber essa notícia logo cedo. Muito difícil mesmo. Essa é uma cena que ninguém queria assistir. Sávio mora em nossos corações. Foi e sempre será uma pessoa espetacular. O sentimento que temos de início é que falta o chão. Mil coisas passam na cabeça da gente. Vem o silêncio e na mesma hora a expressão de que não é verdade. Ele é aquela pessoa que a gente afirma com todas as letras que é um grande amigo. Sempre que me via, me abraçava. E que abraço forte. Sempre seguido de um beijo. Sempre pronto a servir, nos trazer risos, poesia e alegria. Poesias que surgiam do nada, enquanto tomávamos um café. E as lia de forma tão pura, emocionante… Presenteadas foram todas as pessoas que conviveram com ele no dia a dia”, enfatizou.

O fotógrafo Genilson Rodrigues, amigo há 20 anos de Sávio Barão, ressaltou a importância do ator na luta da cultura negra na cidade e Estado, tendo sido reconhecido como um ativista estadual.

“Sávio era um grande amigo, um irmão, um ativista cultural, com negritude na veia. Eu sempre dizia pra ele que só tinha três pessoas negras com reconhecimento aqui no Piauí: ele, a Renata Trindade e Nega Mazé. Quando o via, sempre lhe chamava de “deus africano”. Ele não era só Sávio Barão, era um ativista cultural à frente de seu tempo. Sempre generoso, servindo às pessoas… Fizemos uma trajetória muito grande. Sempre que ia fazer algo, nos procurava. Ele fará muita falta, principalmente nos nossos encontros em Pepeu, ali no Centro do Guaraná, onde falávamos sobre cultura, onde ele esboçava seus projetos. Não foi apenas Picos quem perdeu, mas o Piauí”, lamentou.

Grande líder na luta pela valorização cultural artística e negra, Francisco das Chagas, o Mano Chagas, relembrou o histórico de vida que viveu ao lado de Sávio Barão e lamentou a perca precoce do amigo.

Mano chagas

“Sávio foi mais do que um militante, do que um companheiro. Crescemos juntos, nos distanciamos, mas sempre o carinho permaneceu. Era a pessoa que eu poderia falar o que fosse que ele nunca me questionou. Às vezes brigávamos e meia hora depois estávamos em paz. Então era uma pessoa ímpar. Picos está perdendo com a partida de Sávio Barão, mas agora ele pega seu navio e retorna para nossa terra-mãe, onde nossas ancestralidades estão. É lamentável essa perca precoce. Ele era um cara brincalhão. Quando o via era sempre com aquela risada e abraços que ninguém mais dá. Para mim é uma perca inestimável. Não sou nem de reclamar muito da morte, mas nesse caso especifico é algo inadmissível. A gente entende tudo, mas lamenta profundamente. Na última segunda-feira conversávamos à noite e hoje tive esse impacto logo pela manhã. Foi muito cruel quando soube dessa notícia”, falou consternado.

O historiador e militante Thiago Barroso expressou o pesar pela morte do companheiro de lutas que deixará muitas histórias, admiração e força aos que ficaram e aprenderam com ele.

“Sávio era mais do que um militante. Ele tinha uma vivência e a própria relação que ele tinha com as pessoas, com os amigos e com a família mostrava a experiência de como se dar bem com as pessoas, de servir. Ele era muito querido não só na arte, mas dentro do movimento negro, da academia. Era uma pessoa respeitada. Sua partida deixa a todos tristes. Em um momento que a gente vive com tantas perdas, perdê-lo de uma maneira tão banal, tão inacreditável para gente nos estarrece. Contudo, ele vai deixar história, admiração, força e alegria que ele sempre transmitia”, frisou.

O jornalista, professor e também ator oeirense, Lameck Valentim, atua na luta pela valorização cultural na primeira capital do Piauí e teve como amigo e companheiro de empreitada a Sávio Barão. A amizade de 20 anos rendeu muitos momentos, inclusive a gravação do filme “Uma mulher chamada Esperança”, no qual atuam juntos. O oeirense registrou sua expressão de pesar pela perda do amigo.

“Sávio Barão é o grande ícone das artes cênicas picoenses e do nosso estado. Numa sociedade em que a arte não tem o real valor, Sávio nunca desanimou, nunca desistiu. Foram muitas peças e filmes que tiveram a total dedicação desse baluarte cultural. Em mais de 20 anos de amizade, partilhamos muitas histórias, ele como diretor do PBC e eu do Grupo IPA de Oeiras sempre acreditando no poder transformador da arte. Sávio também deixa uma lacuna na luta por uma sociedade melhor, por uma sociedade mais fraterna. Ele tinha uma aura leve, uma energia extrafísica, um sorriso largo, um abraço acolhedor, uma humildade rara. É… ele não era mesmo desse mundo”, lamentou.

O primeiro contato foi em 2013, durante os preparativos para a peça “A Paixão de Cristo” em Oeiras. A jovem Rayssa Viana disse ter conhecido a Sávio, trocado uma conversa e foi marcada pelo momento com ele, pois a estimulou a não desistir da dança e do teatro.

“Eu tinha uns 15 anos quando tive a oportunidade de conhecê-lo. Eu fazia parte da “Paixão de Cristo”. Meu tio sempre participou de grupos de teatro aqui na cidade e ele me levava. Eu achava aquilo mágico, mas não me via fazendo aquelas artes, subir no palco e incorporar o personagem. Sempre tive vergonha, medo de ser criticada, de alguém sorrir, até que comecei a fazer parte do grupo que foi onde o conheci. Ali ele trocou algumas palavras com a gente e eu trouxe, até hoje, os ensinamentos ali deixados. Serei eternamente grata a ele por tudo o que aprendi sobre teatro e cultura no meio da dança”, disse.

Velório e sepultamento
O corpo do picoense Sávio Barão está sendo velado no Salão do PAF, na Rua do Cruzeiro. O sepultamento ocorre na manhã desta quinta-feira (29), no cemitério São Pedro de Alcântara.

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Você está usando um bloqueador de anúncios.
Quer falar a Redação? Comece aqui
Publicidade