População rejeita água da barragem de Piaus e bebe água de carros-pipa
- A adutora da barragem de Piaus, inaugurada em novembro de 2013 após investimento de 40 milhões de reais pelo DNOCS, falha em fornecer água potável para cerca de 35 mil habitantes em cinco municípios piauienses.
- Apesar da capacidade de distribuição de 220 metros cúbicos por hora, a população local rejeita o consumo direto da água tratada pela Agespisa devido ao excesso de cloro e ao sabor salobra, temendo riscos renais.
- O descrédito no sistema público de abastecimento mantém aquecido o mercado de água mineral e de poços tubulares, forçando famílias e comerciantes a gastarem mensalmente com fornecedores privados para garantir o consumo humano seguro.
Visitada pela presidente Dilma Rousseff (PT) em janeiro de 2013, a adutora da barragem de Piaus, em São Julião (380 quilômetros ao sul de Teresina), foi concluída em outubro do ano passado e entregue à população em novembro, pelo então governador Wilson Martins (PSB). Oito meses depois, a população dos cinco municípios beneficiados pela adutora ainda bebe água de carros-pipas ou compradas de comerciantes d’água da região.

A barragem de Piaus é um mar de águas preto-azuladas que se estende por dezenas de quilômetros e tem capacidade de acumular 106 milhões de metros cúbicos. Já atingiu 40 milhões de metros cúbicos e hoje tem 30% disso, ou algo em torno de 11 milhões de metros cúbicos. Foi construída pelo DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas), com investimentos de R$ 40 milhões. O sistema adutor de Piaus, que inclui a captação, tratamento e distribuição d’água começou a operar no final do ano passado.
Tem aproximadamente 110 metros de extensão e leva água às cidades de Campo Grande, Vila Nova do Piauí, Pio IX e parte de Fronteiras, além de São Julião. Segundo a Agespisa (Empresa de Águas e Esgotos do Piauí), a adutora tem capacidade instalada de 220 metros cúbicos d’água por hora. Hoje, opera com 91 metros cúbicos por hora, o que representa 91 mil litros d’água despejados por hora na tubulação que abastece as cinco cidades, num total de aproximadamente 35 mil pessoas, segundo a Agespisa.
A maior parte desta água é utilizada para cozinhar, banhar, aguar plantas e dar aos animais, entre outras atividades caseiras. A população dessas cidades ainda não se acostumou com a água. Diz que tem muito cloro (“é salobra”) e tem medo de provocar problemas renais. Francisco Leandro da Silva, o Tico, coordenador da Comissão Municipal de Defesa Civil (Comdec) de São Julião, diz que usa a água da barragem para tomar banho, aguar as plantas e dar para os animais.
E também para cozinhar. Para beber, compra água de poço tubular. Gasta R$ 30,00 por mês, em média, dinheiro com que compra aproximadamente 400 litros. João Pedro Beniz, o Nem, dono de um restaurante em São Julião, também compra água para beber e dar aos clientes. Gasta em torno de R$ 120,00 por mês. Os dois são clientes de Domingos Ernesto da Silva, o Domingos da Água, que diz vender água para cerca de 200 residências na cidade e no povoado Mandacarú.
A água dele é captada de poço tubular em Alagoinha do Piauí, a 17 quilômetros de São Julião, e transportada numa camioneta F-4.000 adaptada. Domingos da Água diz faturar em torno de R$ 4 mil por mês nos períodos mais secos do ano.
Diário do Povo
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